Alterações climáticas: uma questão tão económica quanto ecológica

As alterações climáticas constituem um dos desafios fundamentais para a nossa vivência enquanto sociedade, com um largo espectro de impactos muito além das tradicionais questões ambientais.

Um clima em mudança traz inerentes desafios socio-económicos multi-sectoriais, desde o sector produtivo primário diretamente dependente de condições ambientais, impactando a disponibilidade de matérias primas para a indústria transformadora e induzindo uma cascata perturbativa pela cadeia produtiva até se reflectir em problemas de disponibilidade, qualidade e custo que acabam prejudicando o cidadão.

No entanto, as alterações climáticas vão muito para além de considerandos produtivos, ao alterarem as condições de vida das populações, com mudanças nas temperaturas e humidades mensais históricas, na qualidade do ar, seja por falta de chuva, seja por excesso de partículas no ar e, sobretudo, em casos mais graves, por limitação, e mesmo escassez, de acesso à água para as necessidades básicas.

Tomar medidas para lidar apropriadamente com um clima em mudança é assim tanto uma questão ambiental como de sustentabilidade económica e social. Porque um meio ambiente saudável é um “win-win” tanto a nível ecológico como a nível económico.
Abordar alterações climáticas e seus impactos é portanto uma questão transversal à nossa vida enquanto sociedade e enquanto nação.

Naturalmente, ninguém desejará vir a ter um clima desértico em Portugal com tudo o negativo que isso acarreta, incluindo o debilitar físico das populações muito jovens e das mais maduras, de pragas e doenças típicas doutras zonas e, portanto, todas as limitações à actividade humana, produtiva ou não.

Com alterações climáticas, “um mal nunca vem só”

Além dos efeitos mais conhecidos das alterações climáticas, nomeadamente em termos de tendência para aumento de temperatura e diminuição de precipitação média anual em países como Portugal, existe um efeito ainda mais perverso: o aumento da frequência e persistência de fenómenos extremos.

Não bastassem os danos inerentes a cada ocorrência de fenómenos extremos, a sua maior recorrência e persistência traduzem-se num avolumar de danos decorrentes não só do evento em si mas da reduzida capacidade do meio ambiente e social em defender-se do mesmo por não ter tido tempo para recuperar.

No caso das secas, já tal se manifesta através de ocorrências sucessivas ou em bloco. O problema maior está assim já não tanto na ocorrência de um evento de seca pontual, mas mais na forma como tais ocorrências se concentram no tempo em episódios sucessivos, impedindo a recuperação que ocorria entre secas quando estas eram mais intermitentes.
Consequentemente, a vulnerabilidade do País, em especial do Sul, a situações de seca é ainda maior do que se estas fossem intermitentes, traduzindo-se em situações de seca persistente e consequente emergência hídrica mais profundas, com os inerentes riscos de desertificação progressiva.

“Para grandes males, grandes remédios”: o Alentejo tem solução

Tradicionalmente, as alterações climáticas são-nos apresentadas como um fenómeno global relativamente ao qual a nossa ação local e regional de pouco ou nada serviria sem uma concertação de esforços à escala planetária.
No entanto, se tal é verdade para a dinâmica do clima de larga escala, muito podemos fazer para promover um micro-clima positivo à escala local e regional.

Por exemplo, a desertificação progressiva de larga escala no sul da Europa e muito patente no Alentejo pode ser localmente mitigada por aquilo a que eu chamaria de políticas oásis: a promoção de dinâmicas regionais ao nível bio-geofísico de modo a contrariar regionalmente os efeitos globais das alterações climáticas, i.e.~promover um contra-ciclo climático, qual oásis no deserto.

Neste aspecto, a presente nota vem focar-se num dos elementos cruciais para tal promoção micro-climática: a floresta autóctone, numa perspetiva interdisciplinar em Dinâmica do Sistema Terra.

Fundamentalmente, a floresta actua como modulador no sistema climático, influindo na forma como os fenómenos meteorológicos interagem com os processos de superfície, incluindo:

  • Escudo protetor: Reduzindo a exposição dos solos aos contrastes térmicos extremos, seja no calor ou no frio, bem como barrando consideravelmente o efeito erosivo de fenómenos meteorológicos extremos, incluindo do arrastamento de superfície por meio de chuvas e ventos fortes.
    A redução dos contrastes térmicos e dos ventos superficiais, bem como o efeito dissipativo da rugosidade florestal, traduzem-se ainda na redução do risco de formação de vendavais destrutivos associados a grandes descampados, bem como do risco de propagação de incêndios por ação do vento;
  • Antena hídrica: Aumentando a intercepção de massas de ar húmido, condensando a humidade interceptada e encaminhando-a para o subsolo, reforçando os lençóis de água subterrânea. Ou seja, ajudam a reduzir os efeitos nefastos da redução de precipitação, traduzindo esta sua ação numa captura de água preciosa especialmente em períodos de seca;
  • Bomba hidráulica: Extração de águas subterrâneas através da rede de raízes com grande alcance, alimentando assim o ecossistema superficial que sem a floresta não poderia eficazmente alcançar lençóis de água mais profundos;
  • Humidificador: Aumentando a evapotranspiração, a floresta aumenta a humidade atmosférica e potencia condições meteorológicas de tempo húmido e chuvoso à escala regional. A floresta pode assim contribuir para contrariar parcialmente a perda de precipitação decorrente das alterações de circulação oceano-atmosfera.
    O efeito humidificador da floresta traz consequente potencial redução de risco de incêndio relativamente ao associado ao mato seco;
  • Climatizador: A evapotranspiração reduz a energia térmica no ar circundante e consequentemente a temperatura, através do consumo do chamado calor latente de vaporização. Um processo termodinâmico semelhante ao que leva à sensação de frescura na nossa pele quando a nossa transpiração evapora;
  • Ponte hídrica: Um coberto florestal relativamente contínuo extensível do litoral ao interior favorece o transporte de humidade do oceano para as regiões do interior, evitando a perda de tal humidade sobre massas continentais secas. O verdejante sul da Alemanha beneficia do ar Atlântico vindo do norte mesmo estando a centenas de quilómetros de distância da costa, em boa parte graças aos extensos corredores verdes florestais que percorrem o país.

Estes efeitos são potenciados e reforçados por geometrias particularmente eficientes a nível foliar e radicular, das quercíneas, sendo de realçar que os sobreiros e as azinheiras maximizam essa eficiência através da geometria esferoidal densa das suas copas.

Em conclusão, muito embora em Portugal não possamos alterar a circulação geral oceano-atmosfera à escala global por inexistência de concertação internacional nesse sentido, podemos criar condições para promover micro-climas benéficos à escala regional.

Sendo o Alentejo uma região de grande vulnerabilidade, também oferece um enorme potencial de ação: pela sua dimensão geral; pela dimensão média das suas parcelas com real possibilidade de intervenção com massa crítica com vista à melhoria e adaptação dos seus povoamentos florestais actuais; pelo potencial de expansão para adensamento de zonas de pastagens, bem como para florestação de zonas de matos. Em conjunto, estes factores promoverão um micro-clima de enorme importância para o País.

O Alentejo em particular, e Portugal em geral, têm muito a perder por eventual inação, e muito a ganhar com a colocação em prática de uma percepção e visão de gestão pública de curto, médio e longo prazo, que ajude a promover e consolidar a floresta autóctone como aliada na luta contra a desertificação da região.
Na ausência de defesa de uma expansão florestal autóctone no Alentejo que reduza os impactos das alterações climáticas, a desertificação estender-se-á progressivamente para Norte, desde logo incidindo na Beira Baixa.
A promoção de um micro-clima favorável à escala regional está nas nossas mãos.

Original document:

Perdigão, R.A.P. (2019): “O Alentejo num clima em mudança: o destino está nas nossas mãos”. M-DSC Outreach Series PT, 2019-09-14.